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4 de junho de 2012

Na memória procura-se a metáfora

“Euracini, de pátrias e maresias” é o novo Livro de Poesia de Admário Costa Lindo, q já foi distinguido com uma Menção Honrosa do Prémio Literário “Correntes d’Escritas/ Fundação Dr. Luis Rainha 2011/2012”.

A matéria-prima do poeta é a palavra e, assim como o escultor extrai a forma de um bloco, o escritor tem toda a liberdade para manipular as palavras, mesmo que isso implique romper com as normas tradicionais da gramática.

Em “Euracini, de pátrias e maresias” podemos sentir que a poesia existe, sem existir o poema, entendendo que apenas os poetas roubam da poesia um pouco de sua plenitude para encantar aos que lêem… Então, podemos dizer que o nosso poeta Admário, inspirado na poesia, consegue, no tal transformar das palavras em magia, o poema.

Confesso que, ao primeiro contacto com o título, me interroguei:

Porquê Euracini ???

Desconhecia que…

Villa Euracini era uma povoação romana, tornou-se propriedade de uma família romana, os Euracini, que fundaram a villa – desta forma terá surgido Villa Euracini, situada na planície litoral, hoje a cidade contemporânea da Póvoa de Varzim, no Norte de Portugal.

A existência de vários dados arqueológicos da época romana, nesta região, mostram que era uma villa dispersa no actual território da cidade, desconhecendo-se se realmente funcionariam como uma única vila. Dados importantes sobre o povoamento da região, devido a achados e até ao próprio topónimo, poderiam ser relevantes, no entanto, devido a ser uma área densamente urbanizada, a pesquisa arqueológica não é possível.

Vila Euracini aparece pela primeira vez documentada como uma vila portuguesa em 26 de Março de 953, no Livro da Condessa Mumadona Dias, em Guimarães. Desde então várias denominações da cidade têm sido conhecidas.

Como se pode verificar, o velho gentílico romano Euracini foi evoluindo ao longo de séculos, de EURACINI passou a URACINI           VRACINI          VERACINI          VERAZINI          VERAZIM          VARAZIM até chegar ao VARZIM dos dias de hoje. Todavia, existem divergências quanto à origem do nome Varzim. Mas desde 1514 está registada como Villa da Póvoa de Varzim.

Em “Euracini, de pátrias e maresias” as Memórias serão tratadas como um romance realista a sério…

O nosso autor leva-nos às suas origens numa ligação entre duas supostas Pátrias, a deixar-nos nessa relação com o Mar – as maresias:  de Póvoa de Varzim (Pátria I – ora presente) e de Porto Alexandre (Pátria II – longe no tempo).

O poder das palavras, suas, grudadas de poesia, enquanto leitores, acirra-nos as lembranças, e de repente sentimo-nos naquele jeito paciente de recolar os caquinhos daquele alcatruz q se quebrou no fundo da nossa memória.

Na génese destas pátrias e maresias há ali: “A Barra”, palco de “A Maré”, de “A Faina” para “A Safra”, retratos poéticos de bravos poveiros em “Retrato de Sal”, e… quando “O Mar é Seco” (“… com asas me vou ao sul em busca de novo norte…”); é então a “gaivina com sol em fundo”, que pré anuncia a “Viagem” que o levaria à sua segunda Pátria.

Os sentimentos emergem como o ar que a todos nos rodeia, e o nosso poeta, na sua forma humilde, transforma e imortaliza usando as suas próprias palavras na composição de cada poema que vai deixando escrito.

_ negro cabo
[ “é o guardião invencível
da flor do deserto:
tumboa
a eterna fleuma.”]

_ cabo negro
[“se escutas
por entre as brumas que surgem
quando sugas o tutano da história,
se ouves
o marulhar de um mergulho,
são os ecos da memória.”]

_ memória dos rios

_ água de beber Curoca
[“Curoca da solidariedade”]

Na memória procura-se a metáfora…

O nosso autor Admário  acentua-a ao venerar falésias, idolatrar sombras, cortejar abismos, num roteiro para obter o fascínio (q a tantos de nós nos toca).

Desfiando memórias em “Euracini, de pátrias e maresias”,

já colei os meus caquinhos nesta

Canção de mar

o mar te mata

quando a maré recolhe búzios coloridos
do sol de um país ao sul

o mar te mata

quando a nata do marulho lastra odores
do chão de um país ao sul

o mar te mata

quando a brisa espalha os sons feridos
do batuque de um país ao sul

o mar te mata

quando o sal dos lábios traz sabores
de manga de um país ao sul

o mar te mata

quando a ressaca embala as fúrias
da calema de um país ao sul

o mar te mata

quando a vazante solta pinchos
numa praia de um país ao sul

o mar te mata

quando a areia arrasta o ouro
do deserto de um país ao sul

o mar te mata

quando os ares soltam guinchos
de gaivina de um país ao sul

o mar te mata

se da vaga emerge o louro
esquecido de um país ao sul.

o mar te mata

o mar nos mata

de amor.

E da “memória”… O sonho vai paulatinamente passando a realidade, os lugares tornam-se reais (presentes no tempo – hoje – agora)…

…em “(re)torna viagem” a poesia feita poema

de traineira venho…

A obra de Admário Costa Lindo para mim é

_ Poesia à procura do seu significado…

_ É a vontade do regresso ao silêncio da reflexão, pela imortalidade dos laços afectivos q nos unem…

(citando o nosso Admário)

“ …e um canto
me exalta
e reconforta:
ala-ala ala-arriba


Adélia Vaz
(texto para o Encontro de Alexandrenses  “6º Kimbares Seixal 2012”)

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