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9 de junho de 2012

O poema incompleto

Os meus poemas (como outros escritos) nunca são definitivos. Mesmo depois de publicados, como é o caso presente.

O “Euracini” já estava praticamente feito quando resolvi concorrer ao Prémio “Correntes d’Escritas/Fundação Dr. Luis Rainha 2011/2012”, mas não ainda como um livro consistente e não era com esta obra que eu pretendia concorrer.

Cinco dias antes de terminar o prazo para entrega das obras a concurso fui consultar o Regulamento, que já conhecia – ou que, supostamente, conhecia –  para saber das regras precisas para a entrega: envelopagem, utilização de pseudónimo, identificação…

Caiu-me o sangue na arca, como no poema “(re)torna-viagem”: o Regulamento para 2011/2012 determinava que poderiam concorrer “todos os cidadãos portugueses ou de todos os países de expressão portuguesa e espanhola que apresentem trabalhos sobre a Póvoa de Varzim”, contrariamente ao anterior que não indicava tema e que apenas exigia que os autores fossem poveiros ou radicados na Póvoa de Varzim.

A obra por mim escolhida e preparada para o concurso não cumpria essa determinação. Só me restava concorrer com o “Euracini”, que cumpria a exigência temática. Mas restavam apenas cinco dias para compor definitivamente o livro.

No último dia do prazo fiz uma última revisão e achei que estava tudo em ordem… exceto um poema: o “da cor”. Era uma composição dividida em 3 partes mas apenas a última me agradava completamente. Não havia tempo para esperar, tanto mais que não escrevo sob pressão: os poemas têm que fluir e amadurecer com o tempo… precisamente como os bons frutos.

Tomei então a decisão de encerrar o livro com a terceira parte do poema, que completaria o capítulo “a fístula”.

Há dias, quando o Aurelino Costa, mais uma vez, me honrou acedendo a apresentar o livro na cessão de lançamento, lembrei-me do poema que continuava em banho-maria. Li-o, reli-o e resolvi ir dormindo com ele. Hoje (ontem) às 11H50 achei que estava como sempre o imaginara e aqui vos deixo este apontamento (e o poema) que é a explanação da forma como as coisas da poesia acontecem em mim.





da cor


1
no preto a inflamação das cores,
sem que o corvo o adivinhasse.

empoleirado naquele pau de pinheiro,
imóvel e negro,
distinguia-se o  vulto porque era
mais noite do que a noite,
grasnava lembelembe e de caxexe,
macho, não era por fêmea que rosnava,
o cheiro a cadáver o mantinha ali
preso e expectante.
tinha modos de cacique
que dominava o habitat de léguas em redor.

quando o sol amanheceu
descortinou um homem imóvel
de borco estirado:
era amarelo e verde e o corvo enjoou.

2
assim foi que os homens descobriram
as diferenças da pele.

os poderosos não gostaram
porque tinham roubado as cores todas
e sentiram-se ameaçados:
pretendiam-nas verticais limitativas
ou até horizontais mas aprumadas ,
nunca uma cor quebrada sem destino anunciado.

queriam os homens contados,
não iguais pela diferença
mas apenas  igualinhos
a cada um de si.


3

um dia desses
sem contrapoder que limitasse o desejo
os caudilhos inventaram a fístula
que haveria de limitar o sentido da cor.


admário costa lindo
Póvoa do Mar, 8.06.2012.




notas:
Lembelembe. kimb. Lentamente.
Caxexe, de. kimb. Às escondidas, à sorrelfa.

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