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15 de julho de 2012

Chagas de salitre


Olha-me este país a esboroar-se

em chagas de salitre

e os muros, negros, dos fortes

roídos pelo vegetar

da urina e do suor

da carne virgem mandada

cavar glórias e grandeza

do outro lado do mar.



Olha-me a história de um país perdido:

marés vazantes de gente amordaçada,

a ingénua tolerância aproveitada

em carne. Pergunta ao mar,

que é manso e afaga ainda

a mesma velha costa erosionada.



Olha-me as brutas construções quadradas:

embarcadouros, depósitos de gente.

Olha-me os rios renovados de cadáveres,

os rios turvos do espesso deslizar

dos braços e das mães do meu país.



Olha-me as igrejas restauradas

sobre ruínas de propalada fé:

paredes brancas de um urgente brio

escondendo ferros de educar gentio.



Olha-me a noite herdada, nestes olhos

de um povo condenado a amassar-te o pão.

Olha-me amor, atenta podes ver

uma história de pedra a construir-se

sobre uma história morta a esboroar-se

em chagas de salitre.





Ruy Duarte de Carvalho


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